Vera Prokic - Pianista Professora | Produtora|

Imprensa

Uma polonaise de Chopin enquanto se avia a receita

Concertos de piano à hora de almoço, na remodelada Farmácia Açoriana, pelos dedos de uma jugoslava

É uma das mais antigas farmácias de Lisboa, senão a mais antiga. Em 1867, já a farmácia Açoriana, sita no Largo Conde Barão, números 1 a 3, anunciava, no Almanaque Jardim do Povo - que apesar do nome popular, era um almanaque literário, dirigido pelo escritor romântico António Feliciano de Castilho -, ter em seu poder, "pós dentífricos, da receita particular que usava sua Magestade, a Srª D. Maria II".

A pitoresca publicidade garantia que "uma pequena porção embranquece o esmalte por mais negros que os dentes estejam, não contendo em si ácido algum", informando, ainda, do preço deste produto estrela: 60 reis cada 30 gramas.

São, pelo menos, 139 anos de história a cuidar da saúde da população de Santos, mas desde o início de setembro, após mais de dois meses de uma remodelação profunda, que triplicou a área das históricas instalações da farmácia, a Açoriana rejuvenesceu e oferece todas as segundas, quartas e sextas feiras, à hora de almoço (entre as 12h00 e as 13h30), concertos de piano totalmente gratuitos, pelas mãos da pianista jugoslava, Vera Prokic.

O rosto por detrás da transformação de uma farmácia que estava tão degradada como o largo onde se instalou há praticamente século e meio, é Carlos Quelhas, um jovem farmacêutico de 27 anos, natural da Guarda. O grande átrio de entrada da farmácia do Largo Conde Barão e a sua montra - uma área onde, antes das obras, funcionava toda a farmácia - são inteiramente dedicados à cultura. "Aqui, apesar das pressões e ofertas, não entra a indústria farmacêutica, apenas cultura", afirma, adiantando que a parede encarnada sangue que enquadra o piano de cauda branco que comprou para aviar receitas ao som de Chopin terá patentes várias exposições de pintura e fotografia.

"Um cidadão, se quiser ouvir tocar piano o que é que faz?", pergunta, avançando logo a resposta: "Tem que planear a vida e ter dinheiro para ir à Gulbenkian..." Mas, o farmacêutico lançou um novo conceito: "Quis conjugar a saúde com a cultura". E avança: "O investimento grande é entrar no mercado farmacêutico, comprar uma farmácia. Não é comprar um piano, ou pagar à Vera Prokic para cá vir tocar três vezes por semana".

"Quero ser uma farmácia de referência. Não só na área da saúde, mas, também, na área da cultura". Carlos Quelhas acredita que a democratização da cultura eleva a qualidade de vida dos lisboetas e que a promoção desta também cabe às empresas. Vera Prokic, uma excêntrica pianista de cabelos encarnados fogo, como as paredes da farmácia, é professora do Conservatório de Lisboa, e conhecida nas zonas de São Bento, Santa Catarina e Bairro Alto, por se passear com o seu papagaio verde, Mateo. Está deliciada com a iniciativa: "Já me cumprimentam e disseram-me que é muito terapêutica a minha música". A adesão da população, diz Carlos Quelhas tem sido excelente, apesar de tímida. Existem, na Açoriana, dois sofás em frente ao piano, e uma mesa de lounge, onde o farmacêutico convida todos os que quiserem descansar do stress do trabalho à hora de almoço e ouvir um repertório clássico e moderno interpretado por Vera Prokic.

"Já houve um cliente que me pediu para tocar piano e eu aceitei, claro. E há quem fique extasiado a olhar para o piano de cauda, quem nunca tenha visto na vida um tão perto de si". Carlos Quelhas, que tem o quinto grau do Conservatório de Piano, ainda não soltou as mãos pelo teclado. Diz que "está enferrujado", porque abandonou o nobre instrumento pelos estudos académicos. Confessa que também já se sentou no banco do piano, com as portas da Açoriana fechadas, e ficou a olhar para as teclas brancas e pretas com vontade de voltar a tocar. Quem sabe, se, daqui a pouco tempo, não será o primeiro farmacêutico pianista.

PÚBLICO, 26 Set.06. Diana Ralha

"A MÚSICA DE SANTA CATARINA"